O domingo estava lindo. Já pela manhã, o calor dava mostras de seu poder, prenunciando um dia quentíssimo. O sol, ainda escondido por trás das montanhas, tingia o céu na cor lilás que, aos poucos, era engolido pelo azul.
Diante deste cenário, eu caminhava, absorto em meus pensamentos, tentando entender o canto dos galos que ainda arriscavam uns acordes. (Engraçado como eles cantam sempre a mesma música.). Como que enfeitiçado, eu ia olhando par~ todos os lados tentando achar em algum lugar, a resposta para as minhas indagações. E, eu estava no “mundo da lua”.
Deve ter sido por isso tudo que eu, ao observar uma construção, chutei o meio fio da rua ou coisa parecida. Carregava em uma das mãos, um saco de pão que acabara de comprar e seguia em direção ao jornaleiro. Como que despertando de um sonho, vi o chão se aproximando de mim, de maneira nada amistosa.
Nessas horas, temos a impressão de que nossos braços se multiplicam fazendo com tenhamos uma ótima "aterrissagem". Assim não pagamos mico, como se cair fosse pagar mico. Tudo em vão. Cai mesmo e se não fossem os meus joelhos, daria de cara no chão.
Nesse momento, tem sempre alguém olhando. E olhe que foram várias pessoas como se estivessem sabendo o que aconteceria naquele momento. Foi um tal de -"olha lá, ta caindo!" ou então gracinhas como -"epa, quem te empurrou?!" e outras coisas do gênero. Foi aí que ele surgiu. Era um compositor conhecido da escola de samba local. Nas horas vagas, fazia chinelos e sandálias para o pessoal. Ao me ajudar a levantar, disse: - "Machucou!" e olhando para as minhas sandálias, completou: -"também, com esses chinelos... já estão pedindo outros!"e antes que eu falasse qualquer coisa, se prontificou a me vender um par novinho, feitos sob medida. Eram a "minha cara".
Em menos de cinco minutos, subiu o morro e desceu com o par de sandálias. De nada adiantaram as minhas desculpas de que não tinha dinheiro. Depois você paga. Você é gente boa que eu sei! Diante de tais elogios, não havia como dizer não. Também, cá pra nós, meus chinelos já estavam pedindo substituição há muito tempo. A toda hora, tinha que colar uma tira pra não ficar na mão. Só faltava andar com o tubo de cola no bolso. Com a intenção de apreciar o belo dia que prenunciava, voltei com os pães, o jornal, com alguns arranhados nos joelhos e braços, um par de chinelos novos, os chinelos velhos numa bolsa e uma dívida de Vinte Reais do chinelo. Com relação ao tempo, nem sei se, mais tarde choveu.